Saturday, November 18, 2006

Date una vuelta en el aire



O Dr. Cornbloom era um ser um todo lunar. Caminhava pela terra a passos firmes, conquanto sempre em espiral. Vivia, por assim dizer, com os pés nas estrelas, assoviando canções que diziam coisas impositivas como: "date una vuelta en el aire". Quem o observasse mais atentamente perceberia uma constelação em suas palavras e aquela luz oblíqua nas idéias. Como de costume nessa estirpe de almas, era atraído por todos os tipos de silêncio, sobretudo o noturno, e em qualquer firmamento mais longínquo aquietava-se de contentamento. De tanto asozinhar-se, era dado como um sujeito taciturno, o que não correspondia de modo algum à realidade dos fatos, ainda que a realidade, fosse qual fosse, era sempre posta em dúvida pelo próprio Dr. Cornbloom em suas explosões silenciosas. Mas nesse caso, tais inferências de fato não tinham a ver com sua personalidade, pois o Dr. Cornbloom vivia lá seus momentos de folias e estripulias. Via a si próprio até mesmo como um boêmio, quiçá um sátiro nos seus melhores momentos, embora sempre permeado por um caráter romântico que com o tempo aderira à sua pele como uma cera protetora. Houve até quem o visse dançando um bolero. E, segundo tais relatos, conduzia sua dama com destreza e sem hesitação, apesar dos olhos afogados pelos enredos das canções de amores perdidos para sempre. Sendo como era, o Dr. Cornbloom fugia sempre que possível de pessoas solares e suas razões iluministas. Esse tipo de gente sempre lhe queimava as ponderações visionárias e o encantamento das incertezas. Estavam sempre a declarar verdades irrefutáveis e ele a lhes lançar dúvidas eternas. De modo que não combinavam e embora não fosse afeito a fugir de uma boa briga, o Dr. Cornbloom os evitava ao máximo, porque além de tudo costumavam ser muito enfadonhos. Ele preferia os ensombreados como ele, e não por identificação, pois embora afirme-se que no escuro todos os gatos sejam pardos, na verdade apresentam personalidades singularíssimas. De modo que nunca se reconhecia em seus pares. E adorava-os por isso. No entanto, nem sempre é possível esquivar-se de meteoros incandescentes, especialmente quando aparecem de surpresa nas brechas do tempo, equidistantes entre o dia e a noite, em formas sinuosas e curvilíneas. E nosso pobre Dr. Cornbloom, em pleno retorno de Saturno, viu-se traspassado pelo olhar moreno de uma ninfa. Num primeiro zás, pensou que enlouquecera, pois o canto de sereia instalou-se em sua cabeça e o silêncio partiu-se estilhaçado. Ela era o fogo, a labareda do dragão, e o Dr. Cornbloom entregou-se a ela, no inteiro, alçando um vôo por céus nunca dantes navegados em insuportável alegria. E à medida que aproximou-se daquele sol, a cera que lhe protegia, no peito, o coração derreteu-se e Cornbloom, não mais doutor de ciência alguma, caiu do espaço e morreu, feliz, de amor.

2 Comments:

Blogger ipsislitteris said...

essa foto é para passarinho. quem não tem asas, cai do galho. é muito céu. que olho, colibri!

4:42 PM  
Blogger ipaco said...

vc estava lá...

3:28 PM  

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